Um fim de semana esquisito. Meu parceiro de churrasco e cerveja passou o sábado falando de corrida, comeu macarrão e foi dormir às 8 da noite. Reunimos a família em Chapada dos Guimarães numa casa ótima, churrasqueira convidativa e geladeira cheia de bebidas. No entanto, a festa ficaria para o dia seguinte, depois da corrida. “Meu amigo foi abduzido, só pode”, pensei.

Era outubro de 2016, Desafio Senta a Púa, do Ultramacho. “Ultra o quê? Cara, cuidado. Já ouvi dizer que esse povo é meio doido”, alertei o meu amigo Carlos TX. Ele tentou me explicar sobre o percurso de 12 quilômetros no meio de trilhas, estradões e cachoeiras. Eu só ouvia um monte de motivos pra ficar longe disso. “Meu joelho mal aguenta o Karatê, uma prova dessas me quebraria na primeira tentativa”, desconversava.

Já tinha começado a treinar corrida de rua. Tinha feito dois treinos, pra ser mais exato. Mesmo estando animado para participar de uma prova, ainda achava aquilo meio insano. Um cara como eu, com quase 100 quilos, sair correndo por aí, passar vergonha seria a melhor das hipóteses.

No dia seguinte, domingo, acordamos antes das 5 da madrugada. Sério, essa frase ainda me dá calafrios. Seguimos para o Cindacta – Centro Integrado de Defesa e Controle de Tráfego Aéreo, ali mesmo em Chapada, local da largada. Logo no estacionamento percebi que, entre centenas de pessoas, eu era o único que estava mal humorado por ter levantado da cama tão cedo. Isso tudo mudou logo em seguida, quando comecei a sentir o clima da prova e começou a abdução.

Desde criança somos treinados, quase que programados geneticamente, para odiar a palavra prova. Suspeito que a pessoa que inventou essa palavra devia estar com muita raiva, nem ela devia gostar. Entretanto, aquele amontoado de gente magra, salpicado de alguns gordinhos (um aqui outro ali) parecia uma festa. Sério, eu também não acreditaria, mas garanto que o povo estava feliz pra caramba.

Os minutos foram passando e eu fui sendo envolvido pelo clima do Desafio Senta a Púa. A animação antes da largada, a preparação e a explosão de sorrisos durante o início da prova foram me contagiando. A cada pessoa que chegava, que completava a prova, em cada expressão de dor mesclada com sorriso, me mostrava que aquilo era muito diferente do eu que pensava. Existia um universo paralelo à minha frente, um mundo novo, me puxando pra dentro. Naquele dia decidi me inscrever para a próxima corrida. Já foram sete até agora.

No próximo fim de semana vou para a oitava prova, a minha primeira em trilha. Meu desafio será de 10 quilômetros na prova do Ultramacho Poúro – Águas Quentes, em Santo Antônio do Leverger. Estou feliz, animado e ansioso.

Tenho a certeza de que vai ser um momento incrível de contato com a natureza e com minha natureza. Pois a cada passo, em cada quilômetro e prova eu descubro mais sobre a pessoa que sou. Naquele dia estava em Chapada dos Guimarães, no Cindacta, no meio de gente estranha pra mim. Meus outros amigos acreditam que eu fui abduzido. Pois é, eles estão certos.

André Barriento – Jornalista, assessor de comunicação e blogueiro no canal @CorredoresSemNome

 

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