run-3-idade“Não parar jamais”. Esta é a receita do maratonista Frederico Fischer, considerado um dos atletas mais velhos em atividade no mundo. Aos 99 anos, o alemão que mora no interior de São Paulo, ainda não deixou as pistas de corrida, endossando a tese de médicos e educadores físicos de que praticar esporte faz bem à saúde e retarda o envelhecimento.

Em Cuiabá, o aposentado Cedil Pereira Lima é outro exemplo de vivacidade e saúde. Aos 90 anos, ele ainda marca presença nas corridas de rua. Na última prova, completou 10 quilômetros, chegando a frente de muitos corredores mais jovens. O segredo, segundo ele, é aprender a respeitar o ritmo e limites do corpo. Ensinamento que ele leva para tudo.

“Você não precisa ser o primeiro e nem o último. É como avançar no semáforo, ou sair mais cedo do trabalho. Não precisa disso. Eu aprendi a manter meu ritmo e assim nunca tive que parar no meio de uma prova. Sempre consegui concluí-las”.

Com as mãos trêmulas, um dos poucos sinais que revelam a idade, o aposentado nos mostrou algumas das medalhas conquistadas. Somente algumas, ressalta ele, já que para reunir todas levaria muito tempo. “Se eu for procurar minha primeira medalha, vou demorar um mês. São muitos anos correndo”. Muitos mesmo. Cedil começou a correr por volta dos 15 anos. Até mesmo quando trabalhava no garimpo, dava um jeitinho para se exercitar. “Eu ia correr na estrada mesmo, sozinho, porque sempre gostei”.

O resultado é uma saúde invejável. “Eu não tomo remédio nenhum, só vitaminas. Não tenho colesterol, diabetes, e meus batimentos cardíacos estão bons. Os médicos falam que meu coração é de jovem”. Sem contar o bem estar ao encontrar os amigos em cada treino e prova disputada. “Não tem alegria maior do que chegar numa corrida e receber tantos abraços e cumprimentos. Tenho certeza que tenho saúde hoje por causa da atividade física”.

Para o geriatra Denis Milanello, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em Mato Grosso, a prática de atividade física na terceira idade é tão importante quanto o uso de medicamentos. Isso vale para qualquer problema de saúde. “Eu costumo dizer que podemos tratar a dor e aliviar os sintomas com remédios, mas quando associados a atividade física, os resultados são muito mais eficazes”.

No caso da corrida, segundo ele, há benefícios cardiorrespiratórios e metabólicos, como melhora dos índices glicêmicos e de triglicérides, e pressão arterial. Sem contar psíquico que também é afetado. “Há uma melhora no bem estar, no comportamento e até no sono de quem pratica atividade física”.

Nos poucos casos em que a corrida não é sugerida, principalmente em pacientes com osteoartrite, osteoporose e doenças do coração, há outros exercícios que podem ser executados. “O conceito de atividade física na terceira idade mudou. Até 15 anos atrás, eram recomendadas somente caminhadas. Hoje, estudos mostram que atividades resistidas, aquelas que alongam e fortalecem os músculos, são as mais indicadas”.

Na lista estão hidroginástica, pilates, musculação, dentre muitas outras. “Essas atividades, assim como a corrida, trabalham os músculos e também melhoram a qualidade óssea da pessoa. Por isso é importante buscar orientação médica antes de iniciar uma atividade, para definir qual trará melhores resultados para a saúde física e também emocional”.

Esta mesma recomendação vale durante a prática de qualquer atividade. Educador físico Valdecarlos Santos, especialista em reabilitação cardíaca e grupos especiais, explica que todo exercício físico necessita de orientação para ser executado. “As recomendações seguem a individualidade biológica e história de cada pessoa. Há situações em que ela não poderá realizar algum tipo de exercício, mas são situações específicas”.

Quando realizada paralelamente a musculação, a corrida garante um ganho também de massa muscular, que protege o corpo de lesões e fraturas em caso de quedas. “Quando a musculatura está mais forte, o osso fica mais protegido em caso de queda. Sem falar que a pessoa que faz atividade regular, tem mais equilíbrio, força e agilidade. Consegue dar uma resposta melhor em situações de queda”.

Um dos maiores erros, segundo o educador, não só pelos idosos, mas também por outras faixas etárias, é a prática de atividade sem orientação. “Vemos muitas pessoas que correm por superação, para acompanhar alguém, e acabam se expondo a riscos desnecessários. Exercício é igual remédio, precisa ser dosado. Não adianta correr 10 quilômetros numa prova e ficar uma semana mal. Para fazer bem a saúde, é preferível correr pouco por dia, e sentir-se bem”.

Foi assim que a aposentada Evangelina de Jesus Dias, 65, descobriu os muitos benefícios de correr. Com muitos problemas de saúde, na coluna e no coração, ela nunca se atrevia a procurar as pistas. “Os médicos nem me recomendavam. Eu não aguentava. Meu coração estava inchado, a pressão era alta, tinha falta de ar. Eu caminhava um pouco e já cansava”.

Mas o desejo de praticar alguma atividade era maior e Evangelina decidiu persistir. A medida que fazia o tratamento médico, continuava com as tentativas de caminhada. Até que um dia conseguiu dar os primeiros trotes. Correu 10 metros e teve que parar. A cada dia ela avançava mais e mais, até chegar aos 5 quilômetros. “Quando consegui correr 5 quilômetros fiquei tão feliz que não acreditava. Então decidi correr minha primeira prova. Completei 10 quilômetros e fiquei ainda mais apaixonada pela corrida”.

Os treinos continuaram com orientação profissional, até a coluna começar a incomodar. “Aí um médico disse que eu não poderia mais correr. Só que fiquei muito abalada. Correr era o que me deixava feliz. Então fui em outro médico e ele me orientou, que se eu corresse moderadamente, com menos intensidade, eu poderia continuar sem me prejudicar. Então voltei para as pistas e continuo correndo, respeitando a orientação”.

Em seis anos, a aposentada já acumula mais de 100 medalhas e já subiu no pódium várias vezes. Mas esse é apenas um dos motivos para comemorar. “A cada prova eu me sinto mais viva. Minha saúde melhorou, me sinto melhor e mais feliz. Quero viver muito para correr muito mais”.

Fonte: por Tânia Rauber – Jornal A Gazeta – nº 9.036
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