balancando-vinhoA mesma mão que balança o vinho é aquela que o devolve no restaurante.

Quando começou a moda do vinho, ninguém devolvia uma garrafa, mesmo estragada, por dúvida ou timidez.

Eu mesmo passei por uma experiência atroz, em Portugal, quando um amigo convidou-me para jantar numa Marisqueira em Matosinhos. Quando o vinho foi aberto estava mortinho da silva, cor de telha, e o aroma saltou pelo gargalo e me esmurrou o nariz, apesar de estar do outro lado da mesa. Para minha surpresa o português elogiou o vinho e complementou: – Pena que eu não gosto de vinho.
Incapaz de responder à gentileza com a deselegância, tomei a garrafa inteirinha, sozinho. Confesso que pensei em simular um acidente e derrubá-la no chão, mas faltou-me ego.

Agora a tendência inverteu-se. Devolver o vinho em restaurantes virou sintoma de conhecimento, os restaurantes por mera política de bom relacionamento com o cliente aceitam sem discutir, mas no fundo se divertem com a puerilidade de quem o faz.

Uma garrafa devolvida por um cliente foi servida, três dias depois, numa degustação da Confraria Invinovéritas, não só ninguém reclamou, como foi
escolhido como o melhor vinho da noite.

Um “maitre” muito rodado que trabalha num dos melhores restaurantes de Curitiba, levava para casa e bebia, feliz da vida, os vinhos que um determinado cliente frequentemente devolvia. Um dia percebemos que este cliente só devolvia vinhos quando estava acompanhado de amigos europeus, bastou um ligeiro comentário sobre a coincidência e nunca mais houve devoluções.

O vinho que parece estragado pode ser uma ilusão, o chamado efeito manada, isto é quando alguém afirma que tem um defeito, também funciona nas
qualidades e nos aromas, todo mundo acha o mesmo. Numa degustação uma pessoa achou que um um vinho estava “bouchoné”. Duas pessoas a seu lado, confirmaram. Sai do meu lugar, provei o vinho e achei a queixa procedente. Novas taças foram servidas e aprovadas, embora saíssem da mesma garrafa. O interessante é que entre vinte pessoas as três que sentiram o defeito estavam sentadas lado a lado, e eu, que me aproximei, confirmei. Todos nós, honestamente, acusamos o defeito, mas ele não existia.

Como disse Augusto dos Anjos naqueles tuberculosos Versos Íntimos, “A mão que afaga é mesma que apedreja.”

Luiz Groff é Engenheiro Civil, escritor, comentarista e palestrante.
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