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Mesmo sendo pacientes com depressão grave e já tendo outros tratamentos, eles reduziram os sintomas depressivos e melhoraram significativamente a qualidade de vida, principalmente em dois domínios (o físico e o psicológico), em comparação com aqueles que não realizavam exercícios…

Em sua tese de doutorado, defendida no Programa de Pós-graduação em Ciências Médicas da UFRGS, Felipe Barreto Schuch, graduado em Educação Física, avaliou os efeitos da prática de exercícios físicos em pacientes internados com depressão grave. Orientado pelo professor Marcelo Fleck e com a ajuda de uma equipe de pesquisadores, o estudo foi realizado na ala psiquiátrica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) com o objetivo de complementar o tratamento desses pacientes.

Felipe supervisionou a prática de atividades físicas aeróbicas realizadas em uma sala que continha aparelhos de ginástica – como esteira, transport e bicicleta. A pesquisa foi realizada com 50 pacientes de 18 a 60 anos, sendo que 25 fizeram, além do tratamento normal, exercícios físicos três vezes por semana, e os demais fizeram somente o tratamento comum. A divisão dos grupos ocorreu de forma aleatória, e as atividades físicas eram realizadas individualmente. O método, que iniciava com alongamentos e aquecimento de quatro minutos de caminhada a 5 km/h na esteira, permitiu que os pacientes pudessem escolher a intensidade e o tempo do treino, em vez de serem fixos para todos, e tivessem a opção de ouvir a música de sua preferência durante as atividades.

A equipe orientou os pacientes sobre o uso dos equipamentos e sobre como alcançar a dose recomendada, de 16,5 kcal/kg por semana em relação ao peso de cada paciente. Por exemplo, um participante que pesa 70 kg deveria realizar o equivalente a 1.120 kcal por semana. As coletas iniciaram em 2008 e terminaram na metade de 2013. O pesquisador comenta que “mesmo sendo pacientes com depressão grave e já tendo outros tratamentos, eles reduziram os sintomas depressivos e melhoraram significativamente a qualidade de vida, principalmente em dois domínios (o físico e o psicológico), em comparação com aqueles que não realizavam exercícios”.

“A internação é um indicador de coisa muito séria. A psiquiatria hoje é muito ambulatorial: as pessoas são atendidas em postos de saúde, em consultórios, em ambientes de não internação. Só o fato de estar internado já evidencia um perfil de paciente particularmente grave”, ressalta Marcelo Fleck. O professor salienta também que os pacientes aceitaram e toleraram bem os exercícios, “aproveitando o tempo em que estavam internados para fazerem uma intervenção, que mostrou um incremento de benefícios para esses pacientes”.

Antes de iniciarem as atividades, os internados foram examinados, sendo que aqueles que possuíam algum risco cardiológico não participaram. Com isso, o método foi seguro, e a intervenção, benéfica, proporcionando apenas vantagens na recuperação de quem sofre com a doença. Mesmo associado com tratamentos medicamentosos, não houve maiores complicações.

“Muitos dos pacientes manifestaram uma sensação do tipo ‘eu estou no hospital, eu estou mal, eu preciso melhorar. Então eu vou fazer o que eu puder pra me sentir melhor’”, conta Felipe. Além disso, ele e o orientador comentam que alguns pacientes não gostavam de se exercitar, mas aceitaram pela possibilidade de melhorar. Ao perceberem essa melhora, continuaram se exercitando, e alguns até começaram a gostar.

“A depressão é uma doença muito difícil de ser tratada, e acreditar que um tratamento único vai resolver todos os problemas é ambicioso demais. O nosso dado ajuda a fortalecer a informação que o exercício pode ser utilizado, sim, como mais um tratamento para depressão, mesmo em casos graves”, realça Felipe. “Eles não só melhoraram da depressão como se sentiram melhores num aspecto mais geral da sua vida.”

A maior dificuldade encontrada ao longo da pesquisa foi em relação à logística. A equipe precisava adicionar uma nova atividade à internação, um setor com uma sistemática em andamento, e tirar o paciente daquela rotina para fazer um exercício extra pode ser complicado. Porém, o Hospital de Clínicas possui reconhecido enfoque em pesquisa, o que favoreceu a equipe. Por outro lado, Marcelo destaca que “a vantagem da internação é que a gente tem um ambiente bem estruturado, no qual o paciente já está lá, e podemos chegar na hora que quisermos para fazer e participar diretamente da intervenção”.

Em novo projeto, ambos pretendem continuar estudando a depressão, futuramente focando em pacientes ambulatoriais, a partir de um formato de atividade física não convencional e que se adapte ao cotidiano do paciente, como caminhar e subir escadas. “O paciente ambulatorial é mais difícil, pois fazer com que uma pessoa saia de casa e venha ao hospital para fazer uma atividade física é mais complicado”, diz Marcelo. Na futura pesquisa, os pacientes utilizarão pedômetros para medir a quantidade de passos andados por dia e terão uma meta a ser cumprida, que será aumentada progressivamente de acordo com a melhora individual.

Tese completa de doutorado: http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/116782

Fonte: http://www.ufrgs.br (tese de doutorado de Felipe Barreto Schuch)
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